Há momentos e imagens que estamos em risco de perder
- António Heitor
- 24 de jun. de 2025
- 2 min de leitura

Nada é eterno e a mudança é uma característica das nossas sociedades e do meio natural onde nos inserimos e do qual dependemos. No entanto tal não significa que o valor do que desaparece seja substituível, pelos menos sem algo fazermos para inverter a tendência de declínio.
Estes tartaranhões (o tartaranhão-caçador) são visitantes primaveris que faziam as delícias de quem passava pelas nossas planícies cerealíferas e os observava nestes voos rasantes sempre a procurar alimento. São das poucas aves de rapina que nidificam no chão, muitas vezes no meio dos nossos campos agrícolas, em especial aqueles onde os cereais lhes proporcionavam abrigo e condições para completarem o ciclo reprodutivo.
Sim faziam e ainda fazem, mas vê-los é cada vez mais complicado.
Fruto de um conjunto de alterações nas paisagens cerealíferas tradicionais e de mudanças nas práticas agrícolas (algumas inevitáveis, outras não), as áreas favoráveis para a construção de ninhos diminuíram muito. A dinâmica do mercado dos cereais não é muito favorável a muitas destas culturas e a diminuição da área semeada não deve ser factor esquecido na avaliação das razões para o quase desaparecimento desta espécie outrora bastante comum.
Também a pastorícia extensiva passa por mudanças (literalmente) do prado ao prato, nunca esquecendo o impacto que as campanhas contra a "gastronomia cárnica" é alvo, esquecendo sempre de que sistemas e de origens estamos a falar (e sempre mal).
Como quase sempre, a diminuição acentuada destas aves resultará de um conjunto de razões, muitas delas interligadas e por isso de resolução complicada. Infelizmente não bastará apenas mudar uma delas.
A simplificação de discursos e narrativas acaba sempre por dar mais ênfase a uma causa ou solução em detrimento de uma análise global sobre o futuro destas paisagens, destas (e doutras) espécies e, nunca esquecendo, dos sistemas agro-silvo-pastoris que estão na base de uma parte significativa desses ecossistemas.
Se queremos manter o nosso mundo #naturalmenterural capaz de gerar condições para manter estes #momentosadmiraveis é necessário um diálogo alargado, transparente e baseado em conhecimento actualizado. Sem isso provavelmente estas (e outras) imagens não passarão de memórias, sendo certo que muito provavelmente serão substituídas por outras de valor e conteúdo incerto.



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