O perigo da hiperbolização do discurso como justificação para “despertar a consciência colectiva”
- António Heitor
- 18 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

Quase nada acontece nos dias de hoje que não seja narrado de forma exagerada, adjectivada, complementada e muitas vezes categorizada ou ordenada de preferência transformando cada momento no “maior de sempre”. A novidade é apresentada como se nada de igual ou de semelhante tivesse alguma vez acontecido.
Não me chateia esta forma de comunicação por “listas de recordes”, mas já me tira do sério o facto de simplificarem o discurso, os conceitos e o acontecimento propriamente dito. Tudo muitas vezes porque é preciso, advogam os “oradores”, alertar a consciência colectiva pois as pessoas estão “desligadas e cada vez mais egocêntricas”. Assim é preciso alertar e assustar para criar impacto.
Ora aqui está o que realmente me chateia: primeiro infantilizam conceitos (porque os simplificam demais) e discursos. Depois como é preciso “criar impacto” comunica-se por blocos de poucos caracteres. E no fim acham do alto do pedestal “elitista” onde eles se encontram, que o concidadão é burro, estúpido, inconsciente e “analfabruto”. Sim estou também a hiperbolizar (e a hiperventilar de indignação).
Este nosso Mundo #naturalmenterural e tudo o que à volta dele se desenvolve, é bem o exemplo desta forma “moderna” de comunicar e sensibilizar.
Descrever e classificar tudo como se o mundo fosse acabar amanhã, ou como se os nossos modos de vida fossem mudar drasticamente, ou como se estivéssemos perante cataclismos ou realidades apocalípticas, sim alerta, mas também confunde e ao fim de algum tempo banaliza e afasta.
Observem a nossa reação aos “avisos meteorológicos” que por vezes se tornam banais, pois por vezes são terminam em “vai chover de Inverno”, ou “estará calor num dia de Verão”, ou ainda “as ondas vão estar grandes”. Perde-se assim a importante função destes avisos.
O que mais me preocupa nem são estes (e outros avisos). É sim a forma como hoje encaramos a (supostamente normal) evolução das nossas sociedades, do conhecimento e da tecnologia associada à nossa vida quotidiana.
As alterações climáticas e o avanço digital tecnológico, são dois bons exemplos. Todo o discurso “fantástico e de emergência fatídica” associado a estes dois (mega) temas, retira-lhes a complexidade e descontextualiza-os no espaço e no tempo. Perdemos noção da história, tudo é encarado como se fosse o “maior da minha aldeia” e como se nunca tivéssemos, enquanto sociedades, passado por algo semelhante, por dificuldades e adversidades semelhantes.
Será que não conseguimos imaginar a mudança que foi a domesticação de animais e plantas bravias, por exemplo? E como seria a vida sem motores?
Sim, nas últimas décadas a tecnologia avançou a um ritmo bastante rápido. Mas será que as mudanças foram tais que possam ser comparáveis com a "descoberta do controle do fogo" e da (posterior) Revolução Agrícola e a “construção” das primeiras cidades-estados? Ou com a Revolução Industrial e os ganhos em saúde pública e esperança média de vida (por exemplo)?
Quanto mais leio e penso sobre o assunto, mais acredito que não. A agricultura mudou as nossas sociedades de nómadas recolectores para comunidades sedentárias, que foram aprendendo e desenvolvendo sistemas de produção cada vez mais adaptados às caraterísticas (sempre em mudança) de cada local.
Mas para evoluirmos precisámos de errar, mudar e errar outra vez para finalmente adaptarmos modos de vida.
A revolução científica deu o primeiro passo para a grande alteração seguinte (a industrial) permitindo que o conhecimento e a ciência fossem separados da teologia (muito resumidamente). Contudo, esta mudança não causou desde logo grandes alterações nas nossas sociedades, pois a grande maioria da população estava de fora do sistema, mantida à distância pela “ignorância promovida”.
Com a revolução industrial as nossas comunidades rurais passaram a ter a capacidade para se transformar em sociedades urbanas. A mecanização e a evolução dos motores (primeiro a vapor e depois de combustão interna) foram fulcrais para esta enorme mudança que possivelmente ainda hoje decorre.
A par destas revoluções, a transformação política e ética que acompanhou estes tempos mais recentes, a informação e a formação passou a caminhar para a “universalidade e liberdade” de acesso, contrariando assim a tal ignorância colectiva promovida por “sistemas elitistas totalitários”.
Equiparar estas mudanças com aquelas que vivemos hoje diariamente devido aos naturais avanços tecnológicos, não nos permite aplicar a razão, a sabedoria e o bom senso aos problemas que temos pela frente. Andar de ano em ano a discutir mudanças radicais de modos de vida e considerar todos os problemas como "o fim do mundo como o conhecemos", é tornar o discurso binário e numa conversa simplória entre o bem e o mal.
Ou seja, aqueles cujo discurso se baseia nessas premissas de "catástrofe, mudança radical e do fim das nossas sociedades", mais não fazem do que regressar aos tempos em que a ciência e a teologia eram uma e a mesma coisa. Fazem-nos regressar aos tempos em que a “teologia e os seus profetas” dominavam o conhecimento.
Estes discursos e narrativas radicais mais não fazem do que afastar a consciência coletiva da resolução dos problemas normais e cíclicos das nossas sociedades. O que na realidade fazem (e quero acreditar que propositadamente) é regressar à “estratificação elitista” das nossas sociedades medievais, contrariando assim os recentes avanços da liberdade de expressão e de informação. Se no antigamente se mantinham as pessoas sem acesso à informação (para que não houvesse pensamento crítico), hoje usa-se a informação para deturpar e confundir a opinião pública e assim assegurar que na prática não haja pensamento crítico.
O nosso mundo #naturalmenterural é bem a prova da nossa capacidade em resolver os problemas que temos pela frente. Saibamos nós absorver todos estes #momentosadmiraveis e a solução será por certo encontrada, com muita ciência e um pouco de teologia, mas sobretudo com sabedoria e muito bom senso.






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