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Quando a indignação pela perda de passadiços e a falta de meios com asas substitui a tristeza pelo abandono rural!

Mais uma vez ficaram passadiços, baloiços e miradouros queimados, o que se junta à onda generalizada de indignação e tristeza perante a destruição causada pelos incêndios rurais. Compreendo este sentimento perante a nossa incapacidade em inverter a realidade do momento. Mas tal tristeza não pode servir de desculpa pela nossa responsabilidade individual e colectiva perante a razão fundamental que nos trouxe a este cenário … o abandono do Mundo Rural.


Já sabíamos que a tendência seria (e será) a concentração da população nos centros urbanos. Também não é novidade que a população activa nos sectores rurais iria (e irá) diminuir. Ninguém pode ficar espantado ao ver que área abandonada é (e será) cada vez maior.


O que fizemos para encontrar solução para esse problema? Na prática nada.


Não só deixámos que o Mundo Rural fosse transformado num sector politicamente menor, como transformámos os recursos rurais num “compensador” de impactes urbanos e industriais. O Mundo Rural é responsável por tudo, desde a libertação de gases que nos aquecem até à destruição dos rios, passando como seria de esperar, pela plantação de árvores para produção de madeira … esses bandidos que dão cabo da Natureza!


Criámos um discurso depreciativo sustentado num conjunto de narrativas que transformam o agricultor, o produtor pecuário e o gestor florestal, num delinquente, incumpridor e destruidor de recursos, que não olha a meios para obter lucro fácil. Tal discurso esconde propositadamente a realidade do abandono rural, não sendo eu capaz de explicar tal propósito. Mas sei que uma das consequências é a enorme acumulação de matos e árvores abandonadas, ou seja, combustível. E sei, pois está infelizmente à vista de todos, a consequência dessa acumulação … incêndios de grandes dimensões, impossíveis de controlar.


Como enquanto sociedade não reconhecemos os perigos reais do abandono rural, perante imagens de grandes incêndios ficamos indignados com a falta de meios aéreos e com a recorrente inexistência de “higiene” da floresta. Questionamo-nos como é possível ainda não termos a floresta ordenada e revoltamo-nos com a presença dessas “árvores do diabo” que são as verdadeiras responsáveis pelo “inferno de ter o país a arder”.


Este exagero de linguagem (para além de ser prática de meios de comunicação sensacionalistas e de má qualidade), é a face visível da perda de importância do Mundo Rural. Em vez de assumirmos a nossa responsabilidade pelo abandono rural, deitamos as culpas para justificações que não são mais do que a moderna mitologia associada àquilo que desconhecemos … o tal Mundo Rural de hoje.


Sim o Mundo Rural de hoje está diferente. Aliás outra coisa não seria de esperar uma vez que por detrás da agronomia, da zootecnia e da silvicultura está conhecimento científico, está, como sempre esteve, uma lógica de sustentabilidade a todos os níveis. Sim cometemos erros, mas aprendemos. O Mundo Rural de hoje já não é aquele que é retratado por muitas dessas narrativas que nos colam a realidade do século passado.


Não somos perfeitos e cometemos erros, mas estamos cá para aprender, mas exigimos que nos respeitem. Afinal todos cometem erros, certo? Afinal todas as ciências evoluem certo? Estamos cá para a assumir as nossas responsabilidades, mesmo em menor número e não deixaremos de procurar soluções para a falta de agricultores e de mão-de-obra. Mas não podemos substituir os consumidores.


Sim, todos temos responsabilidade! Mesmo enquanto cidadãos, somos responsáveis por não exigirmos a quem elegemos que recupere a importância do Mundo Rural. Enquanto cidadãos, temos responsabilidade no acto do consumo! Enquanto cidadãos, temos responsabilidades em não dar audiência (e gostos) a informação falsa, sensacionalista e de má qualidade.


Não faltam leis, nem ordenamento, nem mesmo meios! Falta actividade económica rural. Falta uma defesa colectiva dos nossos recursos rurais. Falta coragem para nos assumirmos como rurais quer no Verão quer no Inverno. Sim somos e seremos rurais e a nossa ruralidade foi, é e será, parte da nossa cultura e da nossa história.


Se queremos que as novas (e futuras) gerações abracem o Mundo Rural enquanto modo de vida e o desígnio de inverter a tendência de abandono rural, responsável em grande medida (para não dizer única) pelos incêndios de grandes dimensões, temos de deixar de estigmatizar a agricultura, a pecuária e a floresta enquanto actividades económicas.


Aqueles que resistem não são bandidos nem pecadores. São homens e mulheres que procuram assegurar o rendimento para a sua família. São pessoas conscientes da importância dos recursos naturais, pois são esses que dão sustento à sua actividade.


Não somos estúpidos nem precisamos que nos expliquem as coisas como se tivéssemos 6 anos. Já sabemos utilizar um computador e um “telefone dos novos”. Já sabemos mesmo o que é um satélite e como podemos utilizar essa informação na gestão da nossa exploração.


O nosso Mundo Rural ainda está vivo e com capacidade para encontrar soluções que atenuem a perda de população rural, mas não faz sentido sem consumidores, sem produção de alimentos e matérias-primas. Será mais fácil se os nossos concidadãos estiverem do nosso lado. Será mais fácil se a comunicação social fizer um esforço efectivo de ganho de “literacia rural”.


Termino regressando aos passadiços … se calhar é tempo de equacionarmos todas as consequências e perigos de “plantar indiscriminadamente” estruturas de madeira diversas pelos locais mais recônditos onde o risco de incêndio é bastante elevado. Não será o turismo e lazer que substituirá o gado enquanto “consumidor” de material vegetal (combustível).


Sim devemos apreciar os #momentosadmiraveis que o nosso mundo #naturalmenterural nos proporciona, mas a nossa segurança está primeiro. O nosso Mundo Rural deveria estar primeiro e não os meios, ou o ordenamento (ou a suposta falta dele).

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