É óbvio que isto é culpa das alterações climáticas … e das vacas!
- António Heitor
- há 1 dia
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Mais uma calamidade e as alterações climáticas já estão presentes nos discursos e comentários. Essa escolha é, na minha opinião, propositada, pois retira a responsabilidade dos verdadeiros responsáveis, incluindo daqueles que tomam essa decisão. Os resultados destas tragédias devem-se em grande medida à nossa incapacidade operacional em tomar decisões difíceis.
As construções mal feitas e mal localizadas não estão em perigo por causa das alterações climáticas, mas sim por estarem em leito de cheia e por não fazermos uma gestão integral do "escoamento da água". Em última análise uma parte significativa dos prejuízos resultam de 50 anos (ou mais) de falta de coragem para dizer "não" à opção mais barata e não fazendo os investimentos preventivos que poderiam ter ajudado a que os resultados não fossem tão trágicos.
Mas tais comentadores/políticos/jornalistas (pois na realidade nunca deixam de ser as três coisas), rapidamente preferem afirmar que estamos perante mais uma evidência que as "alterações climáticas" são uma realidade, que precisamos de as "combater" e mudar o nosso estilo de vida. Neste "nosso" normalmente não está incluído o "deles"!
Há mesmo quem proponha ser essencial a criação de uma espécie de "gabinete governativo de crise climática", talvez uma espécie de gabinete de guerra. Terminam estas narrativas com a ideia de que "temos que nos preparar pois todos os cenários nos mostram que caminhamos para a autodestruição". Podendo ser verdade, não é esse o problema destas calamidades, nem sequer estamos, felizmente, perante uma situação bélica.
Esta abordagem "climática" baseada em cenários futuros é importante para a construção de políticas estratégicas, mas não resolve os erros de escolha operacional, nem a urgência das comunidades que de repente são confrontadas com tamanha destruição.
Os problemas com a eletricidade e as comunicações, que devido ao vento, à água e ao fogo acabam por ter danos estruturais, não se devem às alterações climáticas, mas sim ao facto de termos redes desenhadas e planeadas a pensar só no custo e não nestas situações de fortes ventos, de cheias e de incêndios. Talvez se o tivéssemos feito, uma parte desta estrutura já poderia estar mais protegida. Sim poderia acontecer o mesmo nível de destruição, mas será que a parte enterrada (por exemplo) seria afetada?
A rede de comunicações de emergência continua a não funcionar em situações de emergência. Porque continuamos a optar pela solução mais barata e a procurar formas de remediar uma coisa que simplesmente não funciona? Essa famosa rede não serve nem por causa das alterações climáticas, nem por causa dos ventos recordistas, nem por termos mais 100mm de chuva, nem sequer por verões mais quentes e secos. Não funciona porque não está desenhada para funcionar em situações de extrema emergência.
Ou seja, o facto de não termos nem as famosas "redundâncias", nem as estruturas de comunicação e comando para situações de emergência e calamidade, nem uma estrutura de resposta logística para emergências e situações extremas, não é culpa das alterações climáticas.
O facto de não termos uma estrutura de sensibilização e informação que nos prepare e ajude para calamidades, que recolha informação sobre material básico, que construa um sistema de sensibilização e informação capaz de nos preparar enquanto comunidades para enfrentar estas situações, não se deve às alterações climáticas.
O facto de nunca termos conseguido capacitar as comunidades, por exemplo através de simulacros, não se deve aos cenários climáticos nem ao aumento de emissões provocados pelo nosso gosto por um belo bife.
Tudo isto (e muito mais) se deve a escolhas feitas por "nós" e porque em última análise preferimos culpar o vento e a chuva causados pelo nosso "modo de vida burguês"!
Será sempre mais fácil culpar as vacas e o "nosso" estilo de vida, do que assumir a responsabilidade e ter a coragem de nos explicar porque razão não podemos construir casas em leito de cheia, ou porque temos de gastar um pouco mais a enterrar cabos, ou a manter um sistema de comunicação de emergência mais caro, mas que não falha (tanto). É sempre mais fácil culpabilizar o "povo", até porque tais mentes iluminadas aprenderam a desculpar-se com esta coisa moderna e inovadora de mudar o "nosso estilo de vida".
Essa falta de coragem (e vergonha) assume agora a forma de culpabilização do excesso de legislação e de regras, como se as comunicações de emergência fossem funcionar se as regras "complicadas" não existissem. Mas essas regras "chatas" servem mesmo para ter uma estrutura e um território mais adaptado a situações de emergência (entre outras coisas).
Era mesmo bom que os comentadores/políticos/jornalistas mudassem também o estilo de vida "deles", eu sei que é difícil pois "nós" sabemos que custa, já o fazemos … aliás sempre o fizemos!
E não, não sou negacionista, apenas acho que a uma coisa é a estratégia que operacionaliza a forma como devemos altera as nossas atividades e as suas influências em processos climáticos, outra é a operacionalização da gestão do território e dos seus usos, bem como a estrutura de emergência e proteção civil. Prevenir pode ser mais complicado e caro, mas remediar será sem dúvida sempre mais difícil ... pelo menos do "nosso" lado.






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