O que ganha o jornalismo ao usar e abusar de figuras de estilo “fantásticas” e de terminologia criminal para descrever actividades profissionais?
- António Heitor
- 22 de out. de 2023
- 4 min de leitura
Num texto de um jornal supostamente de referência, os jornalistas para descrever um conflito legal, utilizam uma linguagem que me começa a incomodar pela forma como pretendem denegrir as profissões florestais, operadores e técnicos e as nossas práticas.
Não vou questionar a necessidade em verificar a legalidade do corte de árvores e da propriedade dos terrenos, que acho ser esse o verdadeiro problema. Nem sequer tenciono perceber quem tem razão nessa matéria, pois num estado de direito há instituições para esse fim.
Infelizmente constato e acho merecedor desta nota aa forma como é “embelezada” e descrita a cena e a questão em causa, saindo do plano racional e entrando nesse novo mundo fantástico de uma floresta mágica recheada de bem e de mal, de santos e pecadores.
1) Começa logo pelo alarido à volta de 7 hectares, aliás parece ser mesmo um problema para os jornalistas, pois no texto mudam a unidade e referem-se a 70 mil metros quadrados. De facto 70 mil é mais impactante que 7, mas na prática continuam a ser à escala da actividade florestal uma ninharia.
2) A estes 7 hectares juntam-se os termos “condenar” e “dizimar”, tudo referindo-se ao corte de árvores, actividade banal e da qual dependemos todos, a não ser que pretendamos viver sem madeira, fibras e papel.
3) Ou seja, afirmar que se “condenam 7 hectares e que irá ficar uma cicatriz na Serra” é algo que descreve bem o que a real pretensão dos autores: denegrir a actividade florestal conferindo-lhe apenas o papel destruidor.
4) Aliás por isso começam o artigo com uma alusão à história do Bambi, pois relatam que o bramido do veado e o “namoro com a veada” é interrompido pelo som da “motosserra”, que interrompe a coisa obrigando “a família de veados a debandar para o coração da floresta”, acrescentando que “há menos floresta para onde fugir”. Aliás todos sabemos que as populações de veado estão de facto em perigo e em risco de conservação … esperem mas o veado não está em expansão por todo o país??? Parece-me que sim.
5) Depois continua-se a apresentação do problema e diz-se que apenas os “terrenos camarários estão a ser poupados, mas que os outros não”. Mas poupados do quê? Da chacina? Mas agora o verbo poupar deve ser usado para explicar as decisões de corte?
6) Reforçam estes jornalistas que 7 hectares de floresta protegida já foram dizimados. E pergunto mas protegida porquê? São pinheiros-bravos. Aliás mais abaixo dão até nota que numa encosta só ficou um carvalho! E bem, pois demonstra os operadores tiveram o cuidado de proteger o que efectivamente era para proteger.
7) E depois há esta coisa que por ser área protegida tudo tem de ser “intocável”. Não senhores jornalistas, nas áreas protegidas foram identificados os valores a proteger, espécies da fauna, da flora e seus habitats. Quem eu saiba não deve ser o caso dos povoamentos de pinheiro-bravo.
8) Aliás o problema nunca foi esse, foi sim o da legalidade do corte devido à posse do terreno e, consequentemente, da madeira.
9) Continua a poesia descrevendo esse “cavaleiro do apocalipse”, uma giratória munida de serras, que agarra as árvores pelos troncos e arranca-lhes todas as folhas e galhos …. UUUIIII que medo. Mas será isto a terminologia para descrever máquinas e operações florestais? E porque não dragões que cospem fogo?
É claro que sei a razão deste alarido e não, não é o conflito legal entre o actual proprietário e a empresa que está a efectuar o corte. Aliás não é por acaso que as ONG de ambiente, o tal C7 já veio a terreno também manifestar a sua preocupação.
Tudo isto se deve a esta nova vontade dessas mesmas ONG (e das suas congéneres internacionais) em começar a restringir cada vez mais o corte de madeira, as plantações florestais, a silvicultura e mesmo, arrisco, a agricultura. Talvez o que todas gostariam é de projectos para libertar auroques, cavalos selvagens e outros “parque jurássicos” do tempo moderno.
E sim gostava mesmo de ouvir a opinião destas ONG sobre a mais-valia de libertar “cenas” que já não existem e que na prática são vacas, cavalos e outras espécies domesticadas. Será que essas ONG sabem o que são as nossas espécies autóctones e os reais problemas que elas atravessam? Se calhar até sabem, mas o LIFE não paga essas coisas pois não.
Talvez as ONG e os jornalistas devessem dedicar uma parte significativa do seu tempo a preocupar-se com os milhões de hectares ao abandono e sem gestão e o impacto dessa situação nos anos que se aproximam. Isso sim, agora textos repetitivos e fantasiados sobre meia dúzia de hectares, tenham paciência.
Ou talvez explicar como se irá produzir a energia eléctrica que precisamos, a matéria-prima para substituir o plástico e os alimentos que precisamos já hoje, não é amanhã, é HOJE!!! E tudo sem cortes rasos e sem silvicultura. Até podem e devem opinar, mas primeiro tentem perceber o que são, como são planeados e quais os seus fundamentos.
Quando a esse jornal e a esses jornalistas, aliás posso mesmo fazer o que eles fazem e generalizar a todos, era muito bom que tal como estudam algumas matérias, estudassem as outras, ou então falassem com quem os pode elucidar sobre os assuntos que não dominam, eu não, por certo, mas haverá que ainda tenha paciência para histórias da carochinha, fadas e desenhos animados em perigo.
Por isto e muito mais é urgente sermos cada vez mais #naturalmenterural.






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