Quando a mensagem e o discurso começam vazios e simplórios … acabam por ficar hiperbólicos!
- António Heitor
- 19 de set. de 2024
- 8 min de leitura
A forma como hoje comunicamos incêndios e fogo (e talvez Mundo Rural e se calhar tudo) não conhece filtros, limites, nem mesmo racionalidade. Parece que a comunicação e o jornalismo pretendem a reacção e o comportamento irracional. Ao fim de algum tempo todos nós acabamos por reagir e entrar nessa corrente. Tudo é analisado, comunicado e “solucionado” através da irracionalidade, do exagero e da simplificação (pois só podemos utilizar 150 caracteres). Não temos a capacidade de análise fria e distante que os problemas complexos necessitam.
Já sei que sou “de comunicação ou jornalismo” e não pretendo ser, mas tenho direito de opinião e a analisar as coisas certo? Reconheço a importância da informação, do jornalismo e dos comentadores. Mas acho que o exagero não é (nem nunca será) a melhor forma de atingir o resultado pretendido. A não ser que o objectivo seja a irracionalidade.
No caso do fogo este cuidado em contrariar a irracionalidade deveria ser ainda maior. Aliás contrariar a banalidade e simplicidade dos conceitos e noções é mesmo urgente, pois frases redondas, como “limpar a floresta”, ou “reordenar a floresta”, ou ainda “árvores bombeiras e cabras sapadoras”, rapidamente se tornam chavões que servem para justificar e solucionar tudo, mas na prática não servem para nada. Sim as “tabernas virtuais” adoram essas discussões básicas e cavernícola, mas gerir uma nação deve ser mais do que ter o objectivo de seguidores e “gostos”.
Mas para não ser acusado de criticar a trivialidade e responder de forma redonda, vamos lá concretizar, mas aviso que se são adeptos dos 150 caracteres vão ficar cansados de tanto ler:
1. Limpar a floresta
O pretendido é reduzir a carga de combustível, normalmente matos e herbáceas, em zonas cujo objectivo será o de prevenção. Não significa “aspirar, varrer ou lavar” a totalidade dos cerca de 6,1 milhões de hectares de espaços florestais (floresta, matos e terrenos improdutivos). Espero que daqui a umas semanas quem defenda este tipo de limpeza, não venha clamar pela defesa dos solos e que a erosão é um problema grave, ou que é inconcebível ter solos tão pobres e por isso é preciso devolver a matéria orgânica (entretanto aspirada se fossem eles que mandassem). Já agora também não são 6,1 milhões de campos de futebol de espaços florestais, são mesmo “hectares”. Já agora as faixas não têm só comprimento também têm largura, o que implica que a área e não o comprimento talvez seja a melhor forma de explicar quanto trabalho se fez nas ditas faixas.
2. Falta ordenamento
Na verdade não, pois Planos e Estratégias não faltam, provavelmente até há demais. Falta sim concretizá-los, ou seja, entregar à vertente técnica os desígnios de ordenamento. O que isso significa … já lá vamos.
3. A paisagem e o território estão desordenados
Confesso que não sei o que significa. Queremos mudar as montanhas, os vales e rios de sítio, dando-lhe novas localizações ou orientações? Escapa a minha parca inteligência e aceito que possa haver alguma lógica racional, mas nunca esquecendo que Planos não faltam. E na prática existirá por certo uma “ordem” que por razões óbvias nunca conseguiremos mudar facilmente. Mas aceito que seja um campo que possamos melhorar.
4. É preciso gerir a floresta!!! Alto que isto já sei o que é. E tenho bem a noção do que falta fazer. Dinamizar as fileiras florestai de forma vertical! É bonito não é? Isso significa que temos de intervir desde o planeamento da plantação até à indústria. Ou seja (lá vai o limite dos 150 caracteres):
a. Adaptar e desenvolver modelos de silvicultura adaptados às novas (e futuras) condições da estação e de mercado. Os modelos que temos para a maioria das nossas espécies pode estar desadequado. Não há como fugir à mudança de condições meteorológicas e as implicações que isso tem no planeamento dos povoamentos. É preciso encontrar formas de serem mais resistentes à seca, às temperaturas extremas e a problemas fitossanitários. Mas também têm de ser revistos devido às alterações de mercado, especialmente se quisermos recuperar a fileira da madeira nobre. Hoje os mercados de madeira têm outras necessidades em termos de espécies, dimensões etc. Por isso precisamos de reequacionar a forma como plantamos e conduzimos os povoamentos.
b. Reforçar a relevância das espécies de rápido crescimento, promovendo a sua utilização nas estações tecnicamente adaptadas e não naquelas zonas onde a tecnocracia acha melhor. Ou seja, as regras para povoamentos de espécies de rápido crescimento devem ser técnicas, baseadas na engenharia e no conhecimento. Esta questão será mais relevante, pois os mercados estão a mudar … se queremos substituir o plástico, acredito que o papel e a madeira serão alternativas óbvias. Mas isso significa que temos de acabar com a “caça às bruxas” das espécies de rápido crescimento.
c. Investir em toda a cadeia das operações florestais, capacitando-as para trabalhar de acordo com os novos objectivos definidos. Significa que os operadores e prestadores de serviços irão por certo ter de se adaptar às novas condições. Sem pessoas os trabalhos florestais não se fazem.
d. Reforçar a indústria florestal, desenvolvendo a sua capacidade para absorver a matéria-prima florestal produzida, a nossa matéria-prima. A indústria tem uma capacidade exportadora enorme … com matéria-prima importada. Se a indústria existe, porque não aproveitamos para tornar rentável a tal “diversificação da floresta”?
e. Sim não podemos esperar que as zonas de conservação e de proteção sejam por si capazes de reduzir o combustível que temos e que são a principal causa para o desastre dos incêndios. Não temos meios nem orçamento para fazê-lo apenas com fundos públicos, precisamos de encontrar novas actividades económicas que contribuam para esse desígnio da diminuição do combustível … e já agora produzindo valor acrescentado e rendimento para os proprietários e populações que do Mundo Rural dependem.
5. Coordenar a conservação dos recursos, com a proteção e a produção
Já sabemos onde deve ser feita a conservação de recursos naturais, bem como onde temos de proteger bens, pessoas e valores. Acredito que possam ser reavaliadas às adaptadas aos dias de hoje. Por exemplo a fraca informação que temos sobre o estado de conservação dos nossos valores naturais não será por certo a melhor forma de gerir áreas de conservação, mas o princípio está lá. Falta sim ciar riqueza, produzir e usar estas zonas de conservação para complementar os objectivos das outras duas.
6. Vamos lá então à fábula das “árvores bombeiras” ou das “cabras sapadoras” (sabendo que os criadores do conceito não queriam que se transforma-se no que se transformou. Espero que não fiquem chateados comigo, se ficarem desculpem lá qualquer coisinha).
a. Por certo que existirão muitos bombeiros Matos, Silvas, Pereiras, Carvalhos e outros tantos nomes tão portugueses. Mas depois de ir procurar na literatura científica (nomeadamente na área da dendrologia e da botânica), não encontrei nenhuma referência árvores ou outras plantas, capazes de combater incêndios. Não sendo eu agrónomo, fui mesmo procurar informação sobre a “Mangueira” e descobri que é uma árvore de fruto da família das Anacardiaceae, incapaz ao que parece de utilizar um extintor ou um pinga-lume e que é conhecida por dar mangas e não mangueiras ou outro utensílio semelhante. Ou seja, o conceito foi usado para explicar uma ideia/conceito e rapidamente se banalizou. Mas é o ideal para entrar na “caça às bruxas”. Imaginem lá … de um lado temos as “árvores bombeiras” e no outro as que “árvores que entram em combustão espontânea”, quem ficará a ganhar neste duelo de titãs? Ninguém no seu juízo perfeito. Acredito que teremos bombeiros com nomes de plantas ou a elas associadas, mas plantas que possam fazer parte de uma corporação de “soldados da paz” tenho as minhas dúvidas, por isso eu deixaria a utilização do mesmo para aqueles que o sabem mesmo o que significa, ou seja, quem o inventou.
b. Fui também há procura de informação ao “Catálogo Oficial de Raças Autóctones Portuguesas” e não encontrei nenhuma “Sapadora”, nem descrevem qualquer raça como passível de ser um “trabalhador especializado com perfil e formação específica adequados ao exercício das funções de gestão florestal e de defesa da floresta”. Já vi “ovelhas amarelas” e confesso que não achei muita piada. Não me parece possível “dar formação de sapador” a caprinos, nem mesmo a ovinos ou mesmo bovinos. Mas sei que a profissão de Sapador, tal como a de Pastor, precisa mesmo de ser valorizada e apoiada. É claro que entendo o conceito, mas para conseguir que a presença de rebanhos em regime extensivo seja de facto uma ferramenta eficiente de redução do combustível, talvez seja mais eficaz começar a trabalhar na promoção do consumo de carne e produtos lácteos oriundos deste regime, sem os transformar a todos em “produtos festivos ou de luxo”. O borrego, por exemplo, poderia ser consumido com maior frequência pela generalidade da população. Desta forma asseguraríamos o rendimento dos pastores sem fazer depender a actividade de subvenções públicas. Isso carece de uma política pública transversal, que defenda a pecuária extensiva e o consumo responsável de carne, assegurando a sua proveniência. E porque não promove-los localmente, por exemplo nas cantinas públicas? Esta defesa deve ser feita todos os dias e em todas as instâncias, contrariando a “diabolização carbónica” da toda a pecuária.
7. E temos “a poesia nostálgica ambiental” que serve para retratar as nossas paisagens e o nosso Mundo Rural. O vocabulário usado é digno de muitas histórias fantásticas, como a que retrata a irmandade do anel, ou aquela da escola de feiticeiros. De um lado temos a Natureza … do outro o demónio do Homem delapidador de recursos que usa máquinas com garras para matar as árvores. “Portugal está a arder”! “O verde deu lugar à destruição”! O que vai ser destas paisagens para sempre perdidas! Um património único! Mas espera lá … ainda há uns minutos afirmam que o que está a arder é mato, eucalipto e por vezes pinheiro. Mas isso supostamente não era o “diabo que ardia espontaneamente”. Afinal era uma paisagem verde que vai demorar décadas a recuperar! É uma tendência que os jornalistas têm para juntar poesia á informação. Deve dar “gostos” e ser “bom para as tendências”, mas se calhar é assim que se faz, mas não sou de comunicação.
8. Por fim a caça às bruxas digna de relatos da santa inquisição. Sim refiro-me à caça aos incendiários e à “máfia” que queima Portugal de lés a lés. Já foram madeireiros, pastores, caçadores, fumadores, “piqueniques”, doentes mentais, alcoolizados, criminosos, “plantadores de eucaliptos”, “mineiros”, etc. Sabendo que o crime de incendiarismo existe e é um problema grave, nada aponta para que seja a causa responsável por tamanha destruição. Até porque os dados não nos mostram isso e o resultado final não depende da causa da ignição. A “perseguição aos dragões e os ogres incendiários” nunca resolveu, nem nunca resolverá o problema. Mas fica bem nas entrevistas e dá “gostos”.
Nota final … sim temos incêndios distintos e estes últimos, maiores e mais destrutivos obrigam a que tenhamos uma frieza e racionalidade muito maior no que dizemos e fazemos. Não podemos substituir o conhecimento, a técnica, a engenharia e a política, por fadas, dragões, elfos e outras criaturas fantásticas. Os dogmas têm de ser retirados desta equação, pois o tempo da política já foi e agora é tempo de uma vez por todas a engenharia e a técnica fazerem o que tão bem sabem fazer … implementar segundo as regras de política, o conhecimento produzido, monitorizando e actualizando a sua implementação.
Porque isto não está feito? Se calhar porque ninguém quer … uns porque não lhes interessa, outros porque dá trabalho e é difícil, haverá quem não tenha meios para o fazer, alguns porque são teimosos, outros porque não fazem a mínima ideia do que isto tudo significa e só querem é “terminar a legislatura sem mais chatices” e também há aqueles, talvez como eu, que se vão calando e desmotivando por cansaço.






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